Como tratamos
Tratamento clínico
O tratamento clínico usa remédios, sobretudo hormonais, e cuidados como fisioterapia, atividade física e saúde mental para controlar a dor da endometriose. Para muitas mulheres é o primeiro passo e pode ser o único: pode começar sem cirurgia para confirmar o diagnóstico e é usado também depois da cirurgia. Ele controla os sintomas enquanto é usado, mas não elimina as lesões; quando não funciona, não é tolerado ou há desejo de engravidar, a cirurgia passa a ser considerada.
Autoria: Prof. Dr. Paulo Ayroza Ribeiro (CRM-SP 60560, RQE 77239) e Profa. Dra. Helizabet Salomão Abdalla Ayroza Ribeiro (CRM-SP 85949, RQE 56380)
Revisão: Prof. Dr. Paulo Ayroza Ribeiro (CRM-SP 60560, RQE 77239), Diretor Científico · Revisado em
O que é
O tratamento clínico é o cuidado sem cirurgia: remédios que controlam a dor e a atividade da doença, junto com medidas que reduzem a inflamação e ajudam o corpo a lidar com a dor.
Na endometriose, os remédios hormonais diminuem ou suspendem a menstruação e, com isso, o estímulo sobre as lesões. A diretriz europeia recomenda oferecer esse tratamento para a dor, e ele pode começar mesmo sem cirurgia para confirmar o diagnóstico, quando a história e os exames apontam para endometriose [1].
É importante saber desde o início: o tratamento clínico controla os sintomas enquanto é usado, mas não faz as lesões desaparecerem. Quando ele é suspenso, os sintomas podem voltar [1, 2].
Para quem pode ser indicada e para quem não
| Opção | Para que serve | O que saber |
|---|---|---|
| Analgésicos e anti-inflamatórios | aliviar a cólica e a dor | úteis nas crises; não tratam a doença [1] |
| Progestagênio (pílula, injetável, implante ou DIU hormonal) | reduzir ou suspender a menstruação e a dor | costuma ser a primeira escolha; pode dar escapes de sangramento [1, 3] |
| Anticoncepcional combinado, de uso contínuo | reduzir a dor menstrual | alternativa quando não há contraindicação ao estrogênio [1] |
| Bloqueadores hormonais (análogos e antagonistas de GnRH) | casos que não respondem às opções acima | usados com reposição hormonal (add-back) para proteger os ossos; os antagonistas orais reduziram a dor em estudos recentes [1, 4] |
| Neuromoduladores (alguns antidepressivos e anticonvulsivantes, em dose para dor) | dor pélvica crônica com componente nervoso | não são para tratar depressão; atuam na forma como o sistema nervoso processa a dor [5] |
Além dos remédios, fazem parte do tratamento:
- fisioterapia pélvica, sobretudo quando há tensão da musculatura do assoalho pélvico e dor na relação;
- atividade física regular e orientação nutricional;
- acompanhamento em saúde mental, porque ansiedade e depressão são frequentes e pesam na dor [2].
Cada um desses cuidados será abordado em detalhe em outro momento, em páginas próprias.
Para mioma e adenomiose, também há opções clínicas que reduzem o sangramento e a dor, como o DIU hormonal e outros hormonais, explicadas nas páginas de cada doença.
Como funciona na prática
- Na consulta, escolhemos com você a opção que combina com os seus sintomas, o seu momento de vida, o desejo ou não de engravidar e o que você já usou antes.
- Nos primeiros 3 meses, o corpo se adapta. Escapes de sangramento são comuns no início de muitos hormonais.
- Na consulta de retorno, avaliamos a dor, os efeitos e a qualidade de vida. Se não houve melhora suficiente, ajustamos a dose ou trocamos de opção.
- A longo prazo, o tratamento é mantido enquanto fizer sentido para você, com retornos periódicos e exames quando indicados.

Antes de começar
- Conte todos os remédios que você usa e já usou, e como reagiu a eles.
- Informe histórico de trombose, enxaqueca com aura, pressão alta, tabagismo e doenças do fígado, que mudam a escolha do hormonal.
- Diga se pretende engravidar: a maioria dos hormonais é também anticoncepcional.
Acompanhamento
O tratamento clínico não tem recuperação como a cirurgia, mas precisa de acompanhamento: retorno em cerca de 3 meses depois de começar ou trocar o remédio e, depois, conforme a evolução. Se a dor volta, muda ou não melhora, a avaliação é refeita. Veja também a página sobre dor que persiste.
Efeitos possíveis
Dependem do remédio. Os mais comuns são escapes de sangramento, dor nas mamas, alteração de humor, acne, retenção de líquido e diminuição do desejo sexual [3]. Os bloqueadores hormonais podem causar ondas de calor e perda de massa óssea, por isso são usados com reposição e por tempo definido [1, 4]. Os anticoncepcionais combinados aumentam o risco de trombose em quem já tem fatores de risco.
Se um efeito incomodar, não suspenda sozinha: fale com a equipe, porque quase sempre há outra opção.
Tratamento clínico ou cirurgia?
| Tratamento clínico | Cirurgia | |
|---|---|---|
| O que faz | controla os sintomas enquanto é usado | retira as lesões |
| Precisa confirmar o diagnóstico antes | não [1] | a cirurgia confirma pela biópsia |
| Gravidez | a maioria dos hormonais impede a gravidez enquanto usada | pode aumentar a chance de gravidez em alguns casos [1] |
| Quando costuma ser indicado | primeiro passo na maioria dos casos | dor que não melhora com remédio, efeitos que não são tolerados, doença que compromete intestino, ureter ou outros órgãos, ou desejo de gravidez em casos selecionados [1] |
Os dois caminhos não competem: muitas mulheres usam tratamento clínico antes e depois da cirurgia. A decisão é feita com você.
Perguntas frequentes
O tratamento clínico cura a endometriose?
Preciso operar para confirmar o diagnóstico antes de começar?
Não. Com a história e os exames sugestivos, o tratamento hormonal pode começar sem cirurgia [1].
Por quanto tempo vou usar?
Enquanto fizer sentido para você e estiver funcionando, com retornos periódicos. Muitas mulheres usam por anos.
Parar de menstruar faz mal?
Não. Com o hormonal, não há acúmulo de sangue dentro do útero; a menstruação volta depois que o remédio é suspenso.
E se eu quiser engravidar?
A maioria dos hormonais impede a gravidez enquanto é usada. O plano muda: pode incluir cirurgia ou reprodução assistida, conforme o caso [1].
O DIU hormonal ajuda na endometriose?
Pode ajudar a reduzir a dor e o sangramento e é uma das opções de progestagênio [1].
Tomo antidepressivo para dor. Isso quer dizer que a dor é psicológica?
Não. Em dose para dor, esses remédios agem na forma como os nervos transmitem a dor [5].
O remédio pode diminuir o desejo sexual?
Alguns hormonais podem [3]. Se acontecer, fale na consulta: há outras opções.
Quando o tratamento clínico não basta?
Quando a dor não melhora, os efeitos não são tolerados ou a doença compromete intestino, ureter ou outros órgãos. Aí a cirurgia é discutida com você [1].
Referências
- Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009. doi:10.1093/hropen/hoac009 · PMID 35350465
- Horne AW, Missmer SA. Pathophysiology, diagnosis, and management of endometriosis. BMJ. 2022;379:e070750. doi:10.1136/bmj-2022-070750 · PMID 36375827
- Brown J, Kives S, Akhtar M. Progestagens and anti-progestagens for pain associated with endometriosis. Cochrane Database Syst Rev. 2012;2012(3):CD002122. doi:10.1002/14651858.CD002122.pub2 · PMID 22419284
- Giudice LC, As-Sanie S, Arjona Ferreira JC, et al. Once daily oral relugolix combination therapy versus placebo in patients with endometriosis-associated pain: two replicate phase 3, randomised, double-blind, studies (SPIRIT 1 and 2). Lancet. 2022;399(10343):2267-2279. doi:10.1016/S0140-6736(22)00622-5 · PMID 35717987
- Poli OB, Silva JCRE, Petta CA, et al. Use of oral neuromodulators in chronic pelvic pain. Febrasgo Position Statement nº 8, 2025. Rev Bras Ginecol Obstet. 2025;47:e-FPS8. doi:10.61622/rbgo/2025FPS8 · PMID 41341930 (com a Profa. Helizabet entre os autores)
