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O que é

A endometriose é a presença, fora do útero, de um tecido parecido com o que reveste o útero por dentro. Na forma profunda, esse tecido cresce para dentro dos ligamentos atrás do útero, da vagina ou da parede de órgãos como intestino, bexiga e ureter [1].

É uma doença crônica e benigna: não é câncer. Mas pode causar muita dor e, em alguns casos, comprometer o funcionamento desses órgãos, e por isso merece uma avaliação cuidadosa.

No EndoPapo: Endometriose superficial e profunda: por que o exame pode vir normal

Sinais e sintomas

  • Cólica menstrual forte, que atrapalha a rotina e piora com os anos.
  • Dor na relação sexual, principalmente na penetração profunda.
  • Dor ao evacuar ou ao urinar, sobretudo no período menstrual; às vezes com sangue nas fezes ou na urina nesses dias.
  • Dor pélvica fora da menstruação, na parte baixa das costas ou que desce para as pernas.
  • Intestino que muda com o ciclo: inchaço, prisão de ventre ou diarreia perto da menstruação.
  • Dificuldade para engravidar, que pode ser o primeiro sinal [1].

A intensidade da dor nem sempre acompanha o tamanho da doença: há mulheres com pouca doença e muita dor, e o contrário.

Como investigamos

  1. A sua história: como é a dor, quando aparece, o que já foi tentado e o que você planeja, inclusive gravidez.
  2. O exame ginecológico, que pode mostrar pontos de dor e nódulos atrás do útero.
  3. Imagem feita para procurar endometriose: ultrassom transvaginal com preparo intestinal ou ressonância com protocolo específico. Nas mãos de quem faz esse exame com frequência, os dois mostram a maior parte das lesões profundas e ajudam a planejar o tratamento [1, 2, 3].

Um ultrassom ou uma ressonância normais não excluem a endometriose, principalmente quando o exame não foi feito com esse objetivo [1, 2]. Se os sintomas são típicos, o tratamento pode começar mesmo sem a doença aparecer na imagem [1].

Profa. Dra. Helizabet Salomão Abdalla Ayroza Ribeiro e Prof. Dr. Paulo Ayroza Ribeiro analisando uma ressonância magnética

Opções de tratamento

  • Tratamento hormonal: progestágenos como o dienogeste, DIU hormonal, pílula contínua e, em algumas situações, análogos do GnRH. Controlam a dor em muitas mulheres, mas não fazem a doença desaparecer e funcionam enquanto são usados [1].
  • Tratamento da dor como um todo: analgésicos, fisioterapia do assoalho pélvico, atividade física orientada e apoio psicológico, com a equipe multidisciplinar da Clínica quando necessário.
  • Cirurgia, por laparoscopia ou cirurgia robótica, para retirar a doença. Costuma ser considerada quando o tratamento clínico não traz alívio, não pode ser usado ou não é desejado, ou quando um órgão como o ureter ou o intestino está em risco [1, 4].
  • Reprodução assistida, para quem quer engravidar, sozinha ou combinada com a cirurgia [1].

Como decidimos juntos

Na endometriose profunda quase sempre há mais de um caminho razoável. A decisão leva em conta a intensidade da dor, os órgãos envolvidos, como você respondeu aos tratamentos, o desejo de engravidar e quando, e o que é importante para você [1, 6].

A consulta explica os benefícios e os riscos de cada opção, inclusive a de acompanhar sem operar. Se você quer engravidar, conversamos sobre a ordem entre cirurgia e reprodução assistida, que muda de caso para caso. A decisão é sua.

Se a cirurgia for indicada

O objetivo é retirar a doença preservando a função dos órgãos e, quando desejado, a fertilidade. O planejamento parte do exame de imagem, que mostra onde está cada lesão. Quando a doença atinge o intestino, a bexiga ou o ureter, a técnica é escolhida conforme o tamanho e a profundidade da lesão; no intestino, veja Endometriose intestinal.

A dor na relação sexual é um dos sintomas que mais pesam na vida da mulher com endometriose profunda. Estudos mostram que a cirurgia melhora a função sexual e a dor na relação, e um estudo do nosso grupo mostrou que essa melhora acontece também quando é preciso operar o intestino [7, 8].

A cirurgia é feita por laparoscopia ou cirurgia robótica, técnicas que usam pequenos cortes. A escolha entre elas depende do caso e do hospital. Nas cirurgias maiores, pode ser necessária a participação de cirurgião do aparelho digestivo ou urologista.

Recuperação. A internação costuma durar de 1 a 3 dias, conforme o que foi feito. A volta às atividades leves costuma acontecer em 2 a 3 semanas, e às atividades físicas intensas em cerca de 4 a 6 semanas; esses prazos são combinados caso a caso. Você recebe orientações por escrito e sabe como falar com a equipe depois da alta.

Recorrência e acompanhamento

A endometriose pode voltar depois da cirurgia. O tratamento hormonal após a cirurgia, em quem não está tentando engravidar, reduz esse risco [1, 5]. O acompanhamento é feito com consultas periódicas e, quando necessário, novos exames de imagem. Se a dor continuar ou voltar, veja Dor que persiste, recorrência e reoperação.

Perguntas frequentes

Endometriose profunda é câncer?

Não. É uma doença benigna, mas crônica, que pode causar dor e afetar órgãos vizinhos ao útero [1].

Cólica forte é normal?

Cólica que atrapalha a rotina ou não melhora com analgésico comum não deve ser tratada como normal e merece avaliação [1].

Meu ultrassom veio normal. Posso ter endometriose profunda?

Pode. O ultrassom comum muitas vezes não mostra a doença; o exame precisa ser feito com preparo e protocolo para endometriose [1, 2].

Ultrassom ou ressonância: qual devo fazer?

Os dois funcionam quando feitos com protocolo para endometriose por quem faz esse exame com frequência. O médico indica qual faz mais sentido no seu caso [2, 3].

Toda endometriose profunda precisa de cirurgia?

Não. Muitas mulheres controlam bem os sintomas com tratamento hormonal. A cirurgia é considerada quando ele não ajuda, não pode ser usado ou há um órgão em risco [1].

O remédio hormonal faz a doença sumir?

Não. Ele controla a dor e pode frear a doença enquanto é usado, mas não a elimina [1].

Consigo engravidar tendo endometriose profunda?

Muitas mulheres engravidam, espontaneamente ou com ajuda. O caminho depende da idade, da reserva ovariana e da extensão da doença, e é discutido na consulta [1].

Devo operar antes de tentar engravidar?

Depende. Em alguns casos a cirurgia vem antes; em outros, a reprodução assistida vem primeiro. Essa ordem é decidida com você [1].

A cirurgia melhora a dor na relação sexual?

Na maioria das mulheres, sim: a dor na relação e a função sexual costumam melhorar depois da cirurgia da endometriose profunda [7, 8]. É um tema que conversamos com atenção na consulta.

A cirurgia robótica é obrigatória?

Não. Laparoscopia e cirurgia robótica são técnicas complementares; a escolha depende do caso e do hospital.

Depois da cirurgia a endometriose pode voltar?

Pode. O tratamento hormonal após a cirurgia, em quem não está tentando engravidar, reduz esse risco [5].

Posso fazer a primeira consulta por telemedicina?

Pode, com os exames enviados antes. Se o exame ginecológico for necessário, isso é combinado na própria consulta.

Referências

  1. Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009. doi:10.1093/hropen/hoac009 · PMID 35350465
  2. Nisenblat V, Bossuyt PMM, Farquhar C, et al. Imaging modalities for the non-invasive diagnosis of endometriosis. Cochrane Database Syst Rev. 2016;2:CD009591. doi:10.1002/14651858.CD009591.pub2 · PMID 26919512
  3. Moura APC, Ribeiro HSAA, Bernardo WM, et al. Accuracy of transvaginal sonography versus magnetic resonance imaging in the diagnosis of rectosigmoid endometriosis: systematic review and meta-analysis. PLoS One. 2019;14(4):e0214842. doi:10.1371/journal.pone.0214842 · PMID 30964888
  4. Bafort C, Beebeejaun Y, Tomassetti C, et al. Laparoscopic surgery for endometriosis. Cochrane Database Syst Rev. 2020;10:CD011031. doi:10.1002/14651858.CD011031.pub3 · PMID 33095458
  5. Zakhari A, Delpero E, McKeown S, et al. Endometriosis recurrence following post-operative hormonal suppression: a systematic review and meta-analysis. Hum Reprod Update. 2021;27(1):96-107. doi:10.1093/humupd/dmaa033 · PMID 33020832
  6. Stacey D, Légaré F, Lewis K, et al. Decision aids for people facing health treatment or screening decisions. Cochrane Database Syst Rev. 2017;4:CD001431. doi:10.1002/14651858.CD001431.pub5 · PMID 28402085
  7. Cervantes GV, Ribeiro PAAG, Tomasi MC, Farah D, Ribeiro HSAA. Sexual function of patients with deep endometriosis after surgical treatment: a systematic review. Rev Bras Ginecol Obstet. 2023;45(11):e729-e744. doi:10.1055/s-0043-1772596 · PMID 38029775
  8. Asencio FA, Fins RJP, Mitie CK, Ussia A, Wattiez A, Ribeiro HS, Ribeiro PA, Koninckx PR. Segmental rectum resection for deep endometriosis and excision similarly improve sexual function and pain. Clin Pract. 2023;13(4):780-790. doi:10.3390/clinpract13040071 · PMID 37489420

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