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Dor não é para ser aguentada

Muitas mulheres ouvem, desde a adolescência, que cólica forte é normal. Não é. Dor que tira você da escola, do trabalho ou da vida social é um sinal que merece investigação, mesmo quando os exames anteriores vieram normais.

Sinais que justificam uma avaliação especializada

  • Cólica menstrual que limita a rotina ou que não melhora com analgésicos comuns ou com anticoncepcional [1].
  • Dor pélvica fora da menstruação que se repete há meses.
  • Dor na relação sexual, principalmente a dor profunda, durante ou depois [1].
  • Dor ou sangramento para evacuar ou urinar no período menstrual, ou intestino que muda de funcionamento sempre na mesma fase do ciclo [1].
  • Dificuldade para engravidar, em especial quando vem junto com dor [1]. Procure avaliação depois de 12 meses de tentativa sem gravidez, ou depois de 6 meses se você tem 35 anos ou mais [6].
  • Sangramento menstrual muito intenso ou prolongado, ou sangramento fora da menstruação. Mioma, pólipo e adenomiose estão entre as causas possíveis [5].
  • Sintomas que se repetem a cada menstruação fora da pelve: dor no ombro, que pode ser sinal de endometriose no diafragma [1]; dor na perna, em especial na face interna da coxa, ou no pé, que pode estar associada à endometriose que atinge nervos como o pudendo ou o ciático [7].

Um sinal isolado não fecha diagnóstico. Ele indica que vale uma conversa com quem trata dor pélvica e endometriose.

Por que o diagnóstico costuma demorar

Num estudo com mulheres de dez países, o intervalo entre o início dos sintomas e o diagnóstico de endometriose foi, em média, de 6,7 anos, e a maior parte desse atraso aconteceu antes de a paciente chegar ao especialista [2]. Parte da demora vem da ideia de que dor menstrual é normal; parte vem de exames que não foram feitos para procurar a doença.

Exame normal não exclui endometriose

O ultrassom de rotina muitas vezes não mostra a endometriose profunda [4]. Nenhum exame de imagem, sozinho, consegue excluir todas as formas da doença [3]. Por isso o diagnóstico começa pela conversa e pelo exame físico, e a imagem é escolhida para responder a uma pergunta específica: ultrassom com preparo intestinal feito por examinador treinado ou ressonância com protocolo para endometriose [1, 3]. Com sintomas típicos, o tratamento clínico pode começar mesmo antes de uma imagem confirmar a doença [1].

Procure um pronto atendimento, sem esperar consulta agendada, se tiver:

  • dor pélvica súbita e muito forte;
  • dor pélvica com febre;
  • sangramento intenso com tontura ou desmaio;
  • qualquer sangramento depois da menopausa (este sem urgência de pronto-socorro, mas com avaliação rápida).

O que fazer agora

  1. Anote seus sintomas por um ou dois ciclos: quando a dor aparece, a intensidade de 0 a 10, o que ajuda e o que piora.
  2. Separe os exames e relatórios que você já tem, inclusive os normais e os de cirurgias anteriores. A página Prepare-se para a consulta traz a lista completa.
  3. Solicite a consulta. Se você mora longe de São Paulo ou já tem exames e quer uma segunda opinião, a telemedicina pode ser o primeiro passo.

Nem toda dor pélvica é endometriose, e nem toda endometriose precisa de cirurgia. O objetivo da primeira consulta é entender o seu caso e decidir, junto com você, o próximo passo.

Perguntas frequentes

Cólica forte é normal?

Um pouco de cólica no primeiro dia pode ser comum. Cólica que obriga a faltar a compromissos, que piora com os anos ou que não melhora com analgésicos e anticoncepcional merece avaliação [1].

Meu ultrassom veio normal. Posso ter endometriose mesmo assim?

Pode. O ultrassom de rotina muitas vezes não mostra a endometriose profunda, e nenhum exame de imagem isolado exclui a doença [3, 4]. O exame físico e a história clínica orientam qual exame pedir e como ele deve ser feito.

Preciso fazer cirurgia para ter o diagnóstico?

Na maioria das vezes, não. Hoje o diagnóstico costuma ser feito pela avaliação clínica e por exames de imagem específicos, e o tratamento clínico pode começar antes de uma confirmação cirúrgica [1].

Dor na relação sexual pode ser endometriose?

Pode ser um dos sinais, principalmente quando a dor é profunda [1]. Há outras causas, e é a avaliação que diferencia.

Tenho sangramento muito forte, mas pouca dor. Devo procurar avaliação?

Sim. Sangramento intenso, prolongado ou fora do ciclo tem causas tratáveis, como mioma, pólipo e adenomiose, e também merece investigação [5].

Sou adolescente e tenho muita cólica. É cedo para investigar?

Não. A endometriose também acontece na adolescência, e o cuidado com a dor pode começar cedo [1]. Até os 18 anos, a consulta é feita sempre com a presença de um acompanhante maior de idade.

Já operei endometriose e a dor voltou. Faz sentido buscar outra avaliação?

Faz. Dor que persiste ou volta depois do tratamento deve ser reavaliada. A página Dor que persiste, recorrência e reoperação explica os caminhos possíveis.

Posso começar por teleconsulta?

Pode, principalmente se você já tem exames ou mora fora de São Paulo. Quando for necessário exame físico, isso é combinado na própria teleconsulta.

Referências

  1. Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009. doi:10.1093/hropen/hoac009 · PMID 35350465
  2. Nnoaham KE, Hummelshoj L, Webster P, et al. Impact of endometriosis on quality of life and work productivity: a multicenter study across ten countries. Fertil Steril. 2011;96(2):366-373.e8. doi:10.1016/j.fertnstert.2011.05.090 · PMID 21718982
  3. Nisenblat V, Bossuyt PM, Farquhar C, Johnson N, Hull ML. Imaging modalities for the non-invasive diagnosis of endometriosis. Cochrane Database Syst Rev. 2016;2(2):CD009591. doi:10.1002/14651858.CD009591.pub2 · PMID 26919512
  4. Young SW, Jha P, Chamié L, et al. Society of Radiologists in Ultrasound consensus on routine pelvic US for endometriosis. Radiology. 2024;311(1):e232191. doi:10.1148/radiol.232191 · PMID 38591980
  5. Munro MG, Critchley HOD, Fraser IS; FIGO Menstrual Disorders Committee. The two FIGO systems for normal and abnormal uterine bleeding symptoms and classification of causes of abnormal uterine bleeding in the reproductive years: 2018 revisions. Int J Gynaecol Obstet. 2018;143(3):393-408. doi:10.1002/ijgo.12666 · PMID 30198563
  6. Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Definition of infertility: a committee opinion. Fertil Steril. 2023;120(6):1170. doi:10.1016/S0015-0282(23)01971-4 · PMID 40991339
  7. Thiel P, Kobylianskii A, McGrattan M, Lemos N. Entrapped by pain: the diagnosis and management of endometriosis affecting somatic nerves. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2024;95:102502. doi:10.1016/j.bpobgyn.2024.102502 · PMID 38735767

Se ficou dúvida sobre o seu caso, o próximo passo é uma conversa.

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