Sua consulta
Quando buscar avaliação
Cólica que atrapalha a sua rotina, dor na relação, dor para evacuar ou urinar no período menstrual, sangramento fora do padrão ou dificuldade para engravidar não são "normais" e merecem avaliação. Em média, o diagnóstico de endometriose demora anos, e um exame de imagem normal não exclui a doença. Se você se reconhece em algum dos sinais abaixo, vale conversar com um ginecologista que trate endometriose e dor pélvica.
Autoria: Prof. Dr. Paulo Ayroza Ribeiro (CRM-SP 60560, RQE 77239) e Profa. Dra. Helizabet Salomão Abdalla Ayroza Ribeiro (CRM-SP 85949, RQE 56380)
Revisão: Prof. Dr. Paulo Ayroza Ribeiro (CRM-SP 60560, RQE 77239), Diretor Científico · Revisado em
Dor não é para ser aguentada
Muitas mulheres ouvem, desde a adolescência, que cólica forte é normal. Não é. Dor que tira você da escola, do trabalho ou da vida social é um sinal que merece investigação, mesmo quando os exames anteriores vieram normais.
Sinais que justificam uma avaliação especializada
- Cólica menstrual que limita a rotina ou que não melhora com analgésicos comuns ou com anticoncepcional [1].
- Dor pélvica fora da menstruação que se repete há meses.
- Dor na relação sexual, principalmente a dor profunda, durante ou depois [1].
- Dor ou sangramento para evacuar ou urinar no período menstrual, ou intestino que muda de funcionamento sempre na mesma fase do ciclo [1].
- Dificuldade para engravidar, em especial quando vem junto com dor [1]. Procure avaliação depois de 12 meses de tentativa sem gravidez, ou depois de 6 meses se você tem 35 anos ou mais [6].
- Sangramento menstrual muito intenso ou prolongado, ou sangramento fora da menstruação. Mioma, pólipo e adenomiose estão entre as causas possíveis [5].
- Sintomas que se repetem a cada menstruação fora da pelve: dor no ombro, que pode ser sinal de endometriose no diafragma [1]; dor na perna, em especial na face interna da coxa, ou no pé, que pode estar associada à endometriose que atinge nervos como o pudendo ou o ciático [7].
Um sinal isolado não fecha diagnóstico. Ele indica que vale uma conversa com quem trata dor pélvica e endometriose.
Por que o diagnóstico costuma demorar
Num estudo com mulheres de dez países, o intervalo entre o início dos sintomas e o diagnóstico de endometriose foi, em média, de 6,7 anos, e a maior parte desse atraso aconteceu antes de a paciente chegar ao especialista [2]. Parte da demora vem da ideia de que dor menstrual é normal; parte vem de exames que não foram feitos para procurar a doença.
Exame normal não exclui endometriose
O ultrassom de rotina muitas vezes não mostra a endometriose profunda [4]. Nenhum exame de imagem, sozinho, consegue excluir todas as formas da doença [3]. Por isso o diagnóstico começa pela conversa e pelo exame físico, e a imagem é escolhida para responder a uma pergunta específica: ultrassom com preparo intestinal feito por examinador treinado ou ressonância com protocolo para endometriose [1, 3]. Com sintomas típicos, o tratamento clínico pode começar mesmo antes de uma imagem confirmar a doença [1].
Quando procurar atendimento logo
Procure um pronto atendimento, sem esperar consulta agendada, se tiver:
- dor pélvica súbita e muito forte;
- dor pélvica com febre;
- sangramento intenso com tontura ou desmaio;
- qualquer sangramento depois da menopausa (este sem urgência de pronto-socorro, mas com avaliação rápida).
O que fazer agora
- Anote seus sintomas por um ou dois ciclos: quando a dor aparece, a intensidade de 0 a 10, o que ajuda e o que piora.
- Separe os exames e relatórios que você já tem, inclusive os normais e os de cirurgias anteriores. A página Prepare-se para a consulta traz a lista completa.
- Solicite a consulta. Se você mora longe de São Paulo ou já tem exames e quer uma segunda opinião, a telemedicina pode ser o primeiro passo.
Nem toda dor pélvica é endometriose, e nem toda endometriose precisa de cirurgia. O objetivo da primeira consulta é entender o seu caso e decidir, junto com você, o próximo passo.
Perguntas frequentes
Cólica forte é normal?
Um pouco de cólica no primeiro dia pode ser comum. Cólica que obriga a faltar a compromissos, que piora com os anos ou que não melhora com analgésicos e anticoncepcional merece avaliação [1].
Meu ultrassom veio normal. Posso ter endometriose mesmo assim?
Preciso fazer cirurgia para ter o diagnóstico?
Na maioria das vezes, não. Hoje o diagnóstico costuma ser feito pela avaliação clínica e por exames de imagem específicos, e o tratamento clínico pode começar antes de uma confirmação cirúrgica [1].
Dor na relação sexual pode ser endometriose?
Pode ser um dos sinais, principalmente quando a dor é profunda [1]. Há outras causas, e é a avaliação que diferencia.
Tenho sangramento muito forte, mas pouca dor. Devo procurar avaliação?
Sim. Sangramento intenso, prolongado ou fora do ciclo tem causas tratáveis, como mioma, pólipo e adenomiose, e também merece investigação [5].
Sou adolescente e tenho muita cólica. É cedo para investigar?
Não. A endometriose também acontece na adolescência, e o cuidado com a dor pode começar cedo [1]. Até os 18 anos, a consulta é feita sempre com a presença de um acompanhante maior de idade.
Já operei endometriose e a dor voltou. Faz sentido buscar outra avaliação?
Faz. Dor que persiste ou volta depois do tratamento deve ser reavaliada. A página Dor que persiste, recorrência e reoperação explica os caminhos possíveis.
Posso começar por teleconsulta?
Pode, principalmente se você já tem exames ou mora fora de São Paulo. Quando for necessário exame físico, isso é combinado na própria teleconsulta.
Referências
- Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009. doi:10.1093/hropen/hoac009 · PMID 35350465
- Nnoaham KE, Hummelshoj L, Webster P, et al. Impact of endometriosis on quality of life and work productivity: a multicenter study across ten countries. Fertil Steril. 2011;96(2):366-373.e8. doi:10.1016/j.fertnstert.2011.05.090 · PMID 21718982
- Nisenblat V, Bossuyt PM, Farquhar C, Johnson N, Hull ML. Imaging modalities for the non-invasive diagnosis of endometriosis. Cochrane Database Syst Rev. 2016;2(2):CD009591. doi:10.1002/14651858.CD009591.pub2 · PMID 26919512
- Young SW, Jha P, Chamié L, et al. Society of Radiologists in Ultrasound consensus on routine pelvic US for endometriosis. Radiology. 2024;311(1):e232191. doi:10.1148/radiol.232191 · PMID 38591980
- Munro MG, Critchley HOD, Fraser IS; FIGO Menstrual Disorders Committee. The two FIGO systems for normal and abnormal uterine bleeding symptoms and classification of causes of abnormal uterine bleeding in the reproductive years: 2018 revisions. Int J Gynaecol Obstet. 2018;143(3):393-408. doi:10.1002/ijgo.12666 · PMID 30198563
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Definition of infertility: a committee opinion. Fertil Steril. 2023;120(6):1170. doi:10.1016/S0015-0282(23)01971-4 · PMID 40991339
- Thiel P, Kobylianskii A, McGrattan M, Lemos N. Entrapped by pain: the diagnosis and management of endometriosis affecting somatic nerves. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2024;95:102502. doi:10.1016/j.bpobgyn.2024.102502 · PMID 38735767
