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Nem toda endometriose precisa de cirurgia. Mas há situações em que a indicação é clara, e é delas que este episódio trata.

Quando a cirurgia é indicada

  • Quando o remédio não funciona: a paciente com dor que já fez o tratamento hormonal, com as terapias complementares, sem sucesso.
  • Quando a doença compromete órgãos: endometriose que infiltra e estreita o intestino, com risco de obstrução, ou que ameaça a função do rim.
  • Endometriose nos ovários: em parte dos casos de endometrioma, a cirurgia é indicada.
  • Dificuldade para engravidar: aqui a decisão é individual. Depende da idade, do desejo de ter filhos e do caminho escolhido: tentar engravidar naturalmente depois da cirurgia ou partir para a reprodução assistida.

Cada caso é avaliado individualmente. Além do dano que a doença faz no corpo, pesa o dano na vida: no trabalho, na vida social, no casamento, na saúde emocional. Quando esse dano é grande e o tratamento atual não está dando resultado, é hora de mudar de estratégia e considerar uma cirurgia bem planejada.

Muitas mulheres chegam ao consultório para uma segunda opinião, depois de receber a indicação de cirurgia. Essa conversa começa pela mesma pergunta: qual é o impacto da doença na vida dela?

Remover a doença e preservar a função

O objetivo da cirurgia é remover cada foco de endometriose. Na outra ponta está a preservação da função: dos nervos da pelve, do intestino, dos rins e das vias urinárias.

É um equilíbrio. De um lado, ser completo para retirar a doença; do outro, ser conservador para preservar o funcionamento dos órgãos. É desse equilíbrio que depende o resultado, seja no controle da dor, seja na fertilidade.

Diagnóstico completo antes, planejamento sempre

Não dá para pular a etapa do diagnóstico. Se falta um exame importante, o mapa da sua pelve ainda não está pronto, e a cirurgia não pode ser bem desenhada.

Nenhuma cirurgia acontece sem planejamento. Nós analisamos juntos a imagem da ressonância ou do ultrassom e definimos a estratégia: por onde começar, em que ordem fazer cada etapa. É essa ligação entre a história da paciente, o exame de imagem e o que será feito na sala de cirurgia que orienta o procedimento.

Quando o intestino é acometido

Quando a endometriose atinge o intestino, há mais de uma forma de tratá-lo. Em parte dos casos, é possível retirar só o nódulo e preservar o intestino, com técnicas como a nodulectomia linear; em outros, é preciso retirar um segmento do intestino (ressecção segmentar).

Em estudo do nosso grupo, o tamanho do nódulo e quanto da circunferência do intestino ele ocupa, medidos no ultrassom com preparo intestinal antes da cirurgia, ajudaram a prever qual técnica seria necessária. É uma das razões pelas quais o exame de imagem bem feito vem antes da cirurgia. A escolha da técnica é sempre individual e conversada com a paciente.

Laparoscopia ou robótica?

As duas vias usadas hoje são minimamente invasivas: a laparoscopia e a cirurgia robótica. Quando a cirurgia é indicada para endometriose profunda, essa é a via recomendada, e não a cirurgia aberta.

Não há uma resposta científica que aponte vantagem de uma sobre a outra para todas as situações. Os estudos que compararam as duas em ginecologia mostram taxas de complicação semelhantes, com evidência de baixa certeza. Em alguns locais de acesso mais difícil, como o diafragma, preferimos a robótica pelo conforto de trabalho que ela oferece; em outros cenários, as duas se equivalem.

O que mais pesa é a indicação correta, o planejamento e o domínio da equipe sobre a técnica escolhida. Como se costuma dizer, quem faz a diferença não é o instrumento, é quem o usa.

Para levar deste episódio: indicação correta, diagnóstico completo e planejamento vêm antes da escolha da técnica.

No próximo episódio, falamos da pergunta que todas fazem: endometriose tem cura?

Conteúdo informativo sobre saúde da mulher. Não substitui a consulta nem a avaliação individual com o seu médico.

Referências

  1. Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009. doi:10.1093/hropen/hoac009 · PMID 35350465
  2. Lawrie TA, Liu H, Lu D, et al. Robot-assisted surgery in gynaecology. Cochrane Database Syst Rev. 2019;4(4):CD011422. doi:10.1002/14651858.CD011422.pub2 · PMID 30985921
  3. Abdalla-Ribeiro H, Maekawa MM, Lima RF, et al. Intestinal endometriotic nodules with a length greater than 2.25 cm and affecting more than 27% of the circumference are more likely to undergo segmental resection, rather than linear nodulectomy. PLoS One. 2021;16(4):e0247654. do nosso grupo doi:10.1371/journal.pone.0247654 · PMID 33857130
  4. Quintairos RA, Brito LGO, Farah D, Ribeiro HSAA, Ribeiro PAAG. Conservative versus radical surgery for women with deep infiltrating endometriosis: systematic review and meta-analysis of bowel function. J Minim Invasive Gynecol. 2022;29(11):1231-1240. do nosso grupo doi:10.1016/j.jmig.2022.09.551 · PMID 36184064

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